Páginas

quarta-feira, junho 25

MUDANÇA DE ENDEREÇO

O ALADA MUDOU DE ENDEREÇO, ACESSEM O BLOG AQUI.

segunda-feira, junho 9

[RESENHA] "Todas as cores do mundo", Givanni Montanaro

Na terra dos peregrinos perenes

Teresa Sem Sonhos vive em Gheel, na Bélgica, cidadezinha conhecida como “terra dos loucos”. Ela não é louca, mas foi parida por uma e registrada como tal, de forma a ser abrigada pela abastada família Vanheim. A ela foi planejada uma vida confortável, com direito a dote e casamento com um homem trabalhador e justo. Até que lhe acontece Vincent Van Gogh. Ele é bem mais velho, e ainda não descobriu seus talentos como artista, mas Teresa logo se apaixona e reconhece nele seu destino como pintor.

Antes de continuar, preciso dizer que Van Gogh é meu pintor favorito. Por diversos motivos que não convém enumerar aqui, ele é um dos artistas que mais admiro. Saber que ele existiu neste mundo me perturba e me conforta. A primeira vez que me emocionei vendo uma pintura foi quando, ao vivo e em todas as cores do mundo, dei de cara com a Noite Estrelada no MoMA. É algo que nunca vou esquecer. Por isso, assim como Teresa, tenho certeza de que me apaixonaria por esse “andarilho de cabelos ruivos, esquivo, rude, de olhos acesos por uma febre desconhecida”. Apenas isso seria suficiente para me pôr na pele de Teresa e “viver” seus momentos com Van Gogh com o coração transbordando. Contudo, este livro me levou além do que eu esperava em razão da minha prévia paixão pelo pintor.

“Todas as cores do mundo” é um romance sobre transformações. Com Teresa, Van Gogh começa a se enxergar como o pintor que um dia se tornará. Da mesma forma, é através do amor e do desejo por Vincent que ela se percebe mulher. São dois caminhos sem volta. Duas estradas amargas e belas. Inescapáveis. Mas a loucura está presente o tempo todo, à espreita, aguardando a melhor oportunidade para se embrenhar no íntimo de ambos e corroê-los por dentro. E a loucura vive em Gheel.

Gheel é quase uma personagem da história. O lugar onde os loucos são livres e em que, algumas vezes, chegam a ser vistos simplesmente como pessoas. Assistindo à missa, caminhando pelas ruas, tendo aulas de pintura, frequentando festas – um cotidiano radicalmente oposto ao dos manicômios nas últimas décadas do século XIX. Teresa está habituada ao ambiente. Vincent, não. Ao mesmo tempo em que a cidade (cujo nome significa “amarelo” em holandês) é cenário para o seu despertar para as cores, Gheel escancara aos olhos de Van Gogh sua mais provável realidade futura: a loucura. A “peregrinação perene”.

O livro é uma delicada e insana carta de amor, que exprime a força das memórias como única forma de salvação e o poder das cores como meio de liberdade. Arte e amor se mesclam como as tintas nas pinceladas de Van Gogh. Desejo e pintura fundem-se, transformando-se em uma só coisa que habita a carne de Teresa e a liberta das cruéis amarras com que a sociedade a envolve. Durante a leitura, fui preenchida por uma sensação nostálgica, como se eu mesma tivesse vivido aquelas tardes com Vincent na Campine, como se ele estivesse me transformado e eu a ele. Mas, ao mesmo tempo, senti-me o próprio Van Gogh. Nas palavras dele, “uma pessoa a ignorar. Um instintivo, um homem de paixões, que não sabe se administrar”. Um louco. Fou roux.

É nítida a variação de claro-escuro que permeia a narrativa. A juventude, a despreocupação, a descoberta do dom e do amor. A decadência, a perseguição, a pobreza e a loucura. O claro é representado pela inocência, por acreditar que se pode ser tudo aquilo que se deseja ser. O escuro, pela ciência, por tornar-se ciente que nem sempre nosso destino nos pertence; que, muitas vezes, somos levados pela loucura. Ou pela sociedade que a renega e condena, mesmo a tendo criado e alimentado, por não saber como lidar com ela.

Alguns dos meus (muitos) trechos favoritos de “Todas as cores do mundo”:

“A todos acontecem o amor, a noite, o silêncio; a todos acontece a traição das coisas belas e desejáveis.” (Pág. 25)

“Até a morte tem uma cor própria, pensei. Toda coisa tem sua própria cor.” (Pág. 25)

“As lembranças se sucedem, se somam, se sobrepõem. Brincam comigo. Zombam de mim. Clareiam-se, desmentem-se, contradizem-se e, de repente, ameaçam: contam tim-tim por tim-tim tudo o que não nos tornamos. E depois de novo nos consolam, eliminam parte daquela dor, esquecem junto conosco, nos dão razão.” (Pág. 45)

“É pela cor que se compreende se os frutos estão maduros, se uma boca é saudável, se um melro é fêmea ou macho, se um inseto é perigoso, se um cogumelo é comestível, se o dia acabou e se a água pode ser bebida. Se a pessoa está feliz ou triste.” (Pág. 86)

“Eu sabia que era proibido, que estava ficando louca como minha mãe, mas a mão descia, era tão bom pensar que todo aquele corpo era meu, só meu, e que o senhor também, talvez, podia ser meu, daquele corpo, e suas pinturas podiam me mostrar aquilo que eu não sabia que era, suas palavras belas podiam me descrever, ser todas minhas.” (Pág. 93)


[LEIA AQUI MINHA HISTÓRIA INSPIRADA POR VAN GOGH]

segunda-feira, junho 2

[RESENHA] "Battle Royale", Koushun Takami

Save rock 'n' roll


"In a world full of the word 'Yes' 
I'm here to scream
'No'
Wherever I go
Trouble seems to follow
only plugged in to save rock and roll"
(Fall Out Boy, "Save rock and roll") 



República da Grande Ásia Oriental. Em uma realidade paralela, este é o nome de um Japão hipotético dominado por um regime totalitário, e também o país que promove anualmente o experimento militar chamado o "Programa". Uma turma do ensino fundamental é escolhida aleatoriamente para participar do referido experimento, cujo objetivo é simples: os estudantes devem se matar até sobrar apenas um. Uma coleira rastreadora e um forte esquema de segurança não permitem que os jovens sequer tentem escapar do seu cruel destino: tornarem-se assassinos (ou assassinados) de seus amigos.

As quase setecentas páginas desse romance de horror me fizeram companhia durante o que foi um mês árido para mim. Terminei-o abalada pela beleza que os artistas japoneses conseguem, como ninguém, imprimir ao pessimismo. Por mais que tenha me emocionado em quase todos os capítulos, posso dizer que "Battle Royale" foi uma história que me atingiu no estômago. Nunca antes um livro me provocou ânsia de vômito. A cada capítulo, uma batalha histérica - são todos crianças, afinal - por sobrevivência. Cada fragmento banal de lembrança passa por uma lupa e toma proporções que apenas uma situação de total desespero e luta pela vida pode provocar. Há os personagens íntegros, com motivações nobres e caráter exemplar. Há também os desprezíveis, assassinos em potencial, que por traumas de infância ou até sem motivo algum, decidem participar do jogo macabro. Há ainda os que estão no meio do caminho, como em toda história interessante. E cada um deles conseguiu me tocar de alguma forma.

Dentre os 42 estudantes participantes do Programa, muitos merecem comentários aprofundados. Porém, por se tratar de uma resenha (e não de uma monografia), resolvi destacar Takako Chigusa, minha personagem preferida. Levando em conta que o livro foi escrito na década de 1990 no Japão, país de notável misoginia, a campeã de atletismo da turma destoa das demais estudantes. A imagem de fragilidade no "padrão japonês" de todas as outras meninas da classe (com exceção de Mitsuko Soma e seu grupo de "delinquentes") não passa nem perto de Takako. Seu visual é forte - ela é linda, mas despreza os modelos idealizados de graciosidade discreta e subserviente das mulheres japonesas, com suas inúmeras bijuterias e luzes no cabelo - e condiz com sua personalidade. Em um determinado momento, seu melhor amigo a compara a uma deusa da guerra da mitologia greco-romana. E ela é a heroína de uma das melhores (a melhor, na minha opinião) lutas da história. Seu oponente não poderia ser mais odioso, um filhinho-de-papai machista e mimado, que tenta estuprá-la antes de acabar com ela. E que a culpa por seu desejo de violentá-la e de matá-la, insinuando que ela o teria provocado apenas por ter se negado a fazer sexo com ele consensualmente. "Escute aqui," diz Takako, "na sua situação atual você deveria estar se preocupando mais com sua vida que com esse seu pinto mixuruca". Ele é mais alto e mais forte que ela e possui uma besta e um nunchaku. Takako, mesmo portando apenas um picador de gelo como arma, não se intimida e parte para o embate mais feroz do livro. (Curiosidade: "Battle Royale" teve uma adaptação cinematográfica no ano 2000, a qual Quentin Tarantino diz ser a história que ele sempre quis filmar. No filme, Takako Chigusa usa um conjunto esportivo amarelo que serviu de inspiração ao icônico macacão de Beatrix Kiddo.Tarantino ficou tão empolgado com o filme que convidou a atriz que interpreta Chigusa, Chiaki Kuriyama, para viver Gogo Yubari em "Kill Bill - Vol. I")

Qual o objetivo do jogo, afinal? Em momento algum temos uma resposta "oficial" satisfatória para esta pergunta, porém, numa conversa particular o responsável pelo Programa daquele ano expressa sua opinião: "Nosso país precisa do Programa. [...] Raciocine comigo: por que você acha que a mídia local transmite a imagem do vencedor? É claro que os telespectadores devem sentir pena dele ou dela, achando que o pobrezinho possivelmente nem queria participar do jogo, mas não teve escolha a não ser lutar contra os outros. Em outras palavras, todos acabam concluindo que não se deve confiar em ninguém, concorda? Isso deve eliminar qualquer esperança dos cidadãos se unirem e executarem um golpe de estado contra o governo".

Li em uma resenha por aí que o enredo de "Battle Royale" foca nas lutas entre os estudantes, dando pouca atenção ao contexto político, como se isso fosse algo negativo. Acredito que o tal "contexto político" esteja embrenhado na arena de maneira tão íntima que seria leviano classificá-lo como segundo plano no enredo. E, mesmo que a política sequer fosse mencionada, apenas a arena, pura e decisiva, não seria o suficiente para a grandiosidade desta história? Quando seu único bem é sua vida e todo o resto ficou em um passado irrecuperável - suas relações, seus hobbies, suas paixões, seus sonhos, sua liberdade - a luta é tudo que você tem. A luta é todo o seu mundo, todo o seu ser. "Battle Royale" é, antes de qualquer coisa, uma história sobre luta. Por isso a canção que cito acima ("Save rock and roll", Fall Out Boy) não parou de tocar na minha cabeça durante a leitura, principalmente na metade final do livro. O protagonista, Shuya Nanahara, é guitarrista e amante de rock (considerado "música vulgar" dos chamados imperialistas americanos e muitas vezes proibido na República da Grande Ásia Oriental). Com pinta de rockstar, Shuya faz as garotas caírem de amores. Mas, para ele, acima de tudo o rock representa liberdade. "Num mundo cheio da palavra 'sim', estou aqui para gritar 'não!'". Essa é a força que impele Shuya e seus companheiros, Noriko e Shogo, a seguirem no jogo com o objetivo real de não se submeterem a ele. Contudo, para que isso aconteça, eles terão que lutar. Uma luta sem fim.

segunda-feira, maio 26

[RESENHA] "Kafka à beira-mar", Haruki Murakami

À beira do mundo

"Kafka à beira-mar" tem dois protagonistas: o adolescente Kafka Tamura, que foge da casa onde vive com seu sinistro pai e parte em busca da mãe e da irmã, e o deficiente mental Satoru Nakata, um homem de sessenta anos capaz de falar com gatos. A exemplo dos protagonistas, o romance é repleto de personagens solitários, excluídos da sociedade moderna. “Sempre me interesso por pessoas que se põem à margem da sociedade, que se retiraram dela. A maioria dos personagens em Kafka à beira-mar está, de uma forma ou de outra, marginalizada. E Nakata, definitivamente, é uma dessas”, disse Murakami.

Meu corpo demorou a se recuperar deste livro. Cerca de uma hora depois de terminar de lê-lo, meus olhos ainda ardiam e meu peito conservava a sensação oca que vem depois do choro.

Li este livro em um mês e parece que, durante esse período, fui inconscientemente levada até a "borda do mundo". Mergulhei de tal forma no universo deste romance que estava difícil me conectar com o mundo aqui de fora.

Quem me puxou primeiro foi o Menino Chamado Corvo, alter-ego de Kafka Tamura, com suas metáforas (a história, inclusive, é permeada com genialidade por metáforas - entretanto, na minha opinião, são as não-metáforas que fazem a grandiosidade desta obra). O rio de águas escuras. A tempestade de areia: "Em certas ocasiões, o destino se assemelha a uma pequena tempestade de areia, cujo curso sempre se altera. Você procura fugir dela e orienta seus passos noutra direção. Mas então, a tempestade também muda de direção e o segue. Você muda mais uma vez o seu rumo. A tempestade faz o mesmo e o acompanha. As mudanças se repetem muitas e muitas vezes, como num balé macabro que se dança com a deusa da morte antes do alvorecer. Isso acontece porque a tempestade não é algo independente, vindo de um local distante. A tempestade é você mesmo".

Depois, de forma breve porém marcante, vem Sakura com toda a vida das mulheres murakamianas. Forte e generosa sem deixar de ser delicada, com aquela pitada de destrambelhamento que dá a graça.

O brilhante Oshima me arrepiou até o último fio de cabelo. São dele as melhores frases do livro (e também a revelação mais surpreendente). Difícil falar mais sem dar spoilers, mas para mim Oshima é um símbolo. Um ícone de muita coisa em que acredito.

Quanto à Sra. Saeki... ah, como me identifiquei com ela! Ela, junto com seu reflexo de 15 anos, é o elemento lírico da narrativa. Pura poesia, puro amor, imagem de sentimentos que temos e não sabemos nomear ou classificar. (Curiosidade: o músico Strummer Swansong criou uma melodia para a canção intitulada "Kafka à beira-mar", composta e cantada na história por Saeki quando jovem, ouça o resultado aqui)

Por último, Nakata. Eu poderia dedicar uma resenha inteira a ele. Este sem dúvida é um dos meus personagens literários preferidos (e ganhou uma tatuagem no meu braço esquerdo). Porque me fez chorar "sem motivo", por se parecer fisicamente com meu avô, por ser o velhinho mais fofo do mundo. Em sua infância, Nakata, após ficar dias desacordado por razões misteriosas, deixa de ser o aluno brilhante que fora e perde a capacidade de ler e escrever, além de ficar "com a cabeça fraca". Por isso, sua vida é simples e ele não se incomoda com isso. Nakata não sabe o que é se aborrecer. Mesmo assim, o velhinho desprovido de vaidade e ambição, não tem medo ser grande. É ele que costura a história quando aceita cumprir sua missão.

Percebi agora que deixei de falar sobre o protagonista, Kafka Tamura. À primeira vista, é um personagem não muito simpático e de difícil empatia. Mas não demorou muito e eu passei a sentir na pele a amplitude de seus desejos, sensações, emoções, prazeres, medos, etc. Comecei a "ser" Kafka Tamura. A amá-lo desesperadamente. Provavelmente, é ele que ainda sinto dentro do meu corpo, ele que se embolou com o que eu sou, emaranhando os fios da sua história, das suas lembranças com as minhas. Bom, acho deve ser assim com qualquer protagonista. Isso é só mais uma das faces do talento de Murakami. 

Abaixo, alguns dos meus trechos preferidos do livro:

"É muito difícil distinguir céu de mar. Ou o próprio navegante do mar. As coisas reais das coisas emocionais." (Pág. 33)

"Essas histórias disparatadas, inventadas e escritas há mais de mil anos, vêm ao meu encontro com muito mais vitalidade do que as dezenas de pessoas sem rosto que vi perambulando no interior da estação. Como é possível? A questão me parece um mistério." (Pág. 73)

"Se eu dirigisse ouvindo uma execução perfeita de uma obra também perfeita talvez me viesse a vontade de fechar os olhos e morrer. Mas ao ouvir a 'Sonata em ré maior', detecto em vez disso os limites da diligência humana. E então compreendo que certo tipo de perfeição só se atinge pelo infinito acúmulo de imperfeições. E isso me dá coragem." (Pág. 139)

"O que nós denominamos ego e consciência têm, como no caso dos icebergs, grande parte do seu domínio submersa em profundas trevas. E é essa dissociação que origina em nosso íntimo profunda inconsistência e confusão. [...] Os sentimentos mais intensos que nós, humanos, experimentamos, são ao mesmo tempo particulares e negativos." (Pág. 278)

"- Tchekov quis dizer o seguinte: a necessidade é um conceito soberano. É estruturalmente diferente da lógica, moral ou sentido. Ela apenas concentra funções de personagens. As desnecessárias a personagens inexistem, mas as necessárias devem existir. Isso é dramaturgia. Lógica, moral ou sentido se evidenciam não por si mesmos mas em sua relevância." (Pág. 351)

"- Não consigo explicar direito. Mas percebo essa mudança. Na pressão atmosférica, na maneira como o som reverbera e a luz reflete, no modo como o corpo se move e as horas passam... Em tudo isso, gradualmente. Como se minúsculas gotas de mudança estivessem se juntando para produzir uma correnteza." (Pág. 390)

"Nós todos somos destruídos e desaparecemos porque o mundo se estrutura sobre destruição e perda." (Pág. 413)





segunda-feira, maio 19

CRÔNICAS CEGAS: A moça que vende batom

      

Aqui no trabalho, tem uma moça que passa de vez em quando, acho que uma vez por semana, vendendo cosméticos. Ela sempre vem bem tarde, depois do fim do expediente e, quando estou sozinha e silenciosa concentrada no trabalho, escuto seus passos no corredor. Com o prédio praticamente vazio, é fácil identificar seu andar peculiar. Passos arrastados, lentos, que vêm vindo na direção da minha sala. Ela abre a porta sem cerimônias, como qualquer um que vem aqui. É uma repartição com atendimento ao público. Desde que comecei a trabalhar neste lugar, há quase seis anos, ela diz exatamente a mesma frase, sem variar a entonação. Anuncia o nome da marca de cosméticos, seguido por um “Tem batom na promoção”. Nunca comprei com ela. Não uso essa marca. Isso me leva a, há seis anos, repetir minha resposta: “Não, moça, obrigada”.

Ela não se abala com minha recusa. Apenas se arrasta para fora e fecha a porta atrás de si.

A moça do batom, que na verdade é uma senhora bem mais velha que eu, continua igual desde a primeira vez que a vi entrar aqui oferecendo seus produtos. Não envelheceu um isso e mantém os mesmos cabelos curtos. Enquanto que eu já fui várias pessoas durante esses anos, com todas as cores e cortes de cabelo, aumentando o número de tatuagens, variando o estilo de roupa, criando e desfazendo afinidades, trocando humores e disposições, renovando revoltas e ambições... Ela e seu jaleco branco são precisamente os mesmos.

Hoje, pensei em comprar um batom.

Quis ver as cores que ela tem e o valor da promoção. Mas, assim que ela entrou e proferiu sua costumeira frase, respondi: “Não, moça, obrigada”. Percebi então que, ao contrário das características superficiais tão variadas, eu não mudo nada. Sou exatamente como ela. Os mesmos passos arrastados no corredor. A mesma frase.

Todo dia, a mesma frase.

A mesma resposta.

“Não, moça, obrigada”.



Imagem: Arte de Shiori Matsumoto, alterada por mim.

sexta-feira, maio 16

este é o meu sangue




As sirenes são gritos de criança.

Quando acaba tudo só me resta escrever. E quando acaba escrever, me resta o quê? Dois olhos, uma boca. E os gritos de criança da cidade. Um corpo pela metade. Queixas e rabos de olho (eu estou cansada). Vou pular.

Dessa vez.

Vou pular.

Pra dentro.

Do carinho amigo que não existe mais. Das estradas trilhadas nas quais fui deixada para trás. Fui deixada para trás. (Me esperem). Eu os alcanço na morte. Eu chego lá. Nos vemos, amigos, cara a cara no juízo final. Em meio a tantos falsários, amigos, eu sou o rosto sincero. Estarei. Sempre. Aqui. (Deixada para trás). Rezando para que os panos caiam e vocês me vejam, louca, pura. Cem-por-cento quem pode amar. Arrogante. Perdida. Amigos do sono, vejam-me desnudar para criar um corpo perfeito, uns olhos perfeitos, uns braços perfeitos. Vejam-me puxar a vida do caos, agarrá-la pelos cabelos a arrastá-la a seus pés, como oferenda. Tomem essa vida. Tomem toda.

Tomem.

Meu.

Choro.

Invisível.

Minha voz sempre embargada. Minha alegria desestabilizada.

Que eu tomo seus abraços como dádivas.










quarta-feira, maio 7

Essa menininha



Faz tempo eu quero matar essa menininha.
Mas, por mais que não a veja morta,
o cheiro de putrefação
sobe ao meu olfato.
A menininha já deve estar morta.
Ou não está?

Aqui tem mais versos dela do que meus.
Dentro do meu peito enterraram seu caixão.
Essa menininha.
Aquela menininha.
Ela não me viu chegar,
não me notou aqui.

Quero despojá-la junto
aos outros cadáveres.
Quero gritá-la para fora dos
meus olhos.
Essa menininha tem gosto de felicidade e sonolência.
Mas o sono que vem dela
não é esse que agora me apossa, esse sono químico.
Em uma coisa somos parecidas: não sabemos
pra onde andamos.
Só que ela não se preocupa com isso.
Não se preocupava.

Ela morreu.

Ainda vejo sua sombra na noite,
no vento escuro,
no cheiro de maresia
ou no ar saturado da cidade.
Vejo-a pairando sobre minha pele ferida.
Costurada nas minhas linhas,
desfiada nas minhas bainhas curtas.

O seu espectro
é qualquer coisa
que não sou eu.

Quero matar essa menininha.
Eu quero matar.





Imagem: "Innocence", Shiori Matsumoto.